Lugar onde se vive influencia velocidade do envelhecimento
26/05/2026
(Foto: Reprodução) Lugar onde se vive influencia o envelhecimento.
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As pessoas envelhecem mais rápido na Ásia ou na Europa? A resposta, ao que parece, depende de fatores genéticos, mas também dos locais onde elas moram.
Um estudo internacional encontrou indícios de que a geografia e a genética interagem de maneiras complexas, podendo influenciar o envelhecimento. Ou seja, não basta saber de onde a pessoa vem para entender como o seu corpo envelhece, também importa onde o indivíduo vive atualmente. E, segundo os pesquisadores, mudar de continente está associado a diferenças no envelhecimento biológico das nossas células.
Essa é a conclusão de uma equipe de cientistas liderada pela Universidade de Stanford, que publicou na revista Cell uma das análises mais completas sobre como genética e ambiente afetam o corpo humano.
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Retrato molecular da diversidade humana
O estudo analisou 322 pessoas saudáveis de ascendência europeia, do leste asiático e do sul da Ásia, muitas delas recrutadas em conferências científicas internacionais. A ideia foi comparar indivíduos com a mesma origem genética vivendo em continentes diferentes, permitindo diferenciar quais características biológicas estão mais ligadas à genética e quais ao ambiente.
Para isso, os pesquisadores utilizaram ferramentas de "multiômica", uma técnica capaz de analisar simultaneamente dados genéticos, proteínas, microbioma intestinal e processos metabólicos. O resultado foi uma espécie de retrato molecular da diversidade humana, algo inédito nesse nível de detalhe.
Segundo explicou Michael Snyder, citado em comunicado da Universidade de Manchester, esta foi a primeira vez que se elaborou "um perfil detalhado de pessoas de todo o mundo" capaz de distinguir o que está relacionado à ancestralidade genética e o que se deve à geografia de onde vivem.
A marca persistente da genética
O primeiro grande achado confirmou algo que muitos cientistas já suspeitavam: a ancestralidade genética deixa uma marca biológica profunda e surpreendentemente duradoura.
Por exemplo, pessoas de origem sul-asiática apresentaram maiores sinais de exposição a patógenos; as de ascendência do leste asiático mostraram padrões distintos no metabolismo das gorduras; e as de origem europeia tinham maior diversidade do microbioma intestinal, além de níveis mais elevados de metabólitos associados a doenças cardiovasculares.
O mais impressionante é que esses padrões permaneceram estáveis mesmo quando os participantes viviam em continentes diferentes dos de seus ancestrais.
"Ficamos impressionados com a consistência com que a origem étnica influenciava a imunidade, o metabolismo e o microbioma, mesmo quando as pessoas se mudavam para milhares de quilômetros de distância", explicou o coautor do estudo, Richard Unwin, da Universidade de Manchester.
Migrar pode influenciar envelhecimento biológico
Mas o continente onde vivemos também deixa sua marca. Os pesquisadores descobriram que morar longe da região de origem dos próprios antepassados está associado a mudanças importantes nas redes metabólicas e lipídicas, assim como a alterações na composição do microbioma intestinal.
O ambiente – como alimentação, poluição, estresse ou acesso aos serviços de saúde – parece modificar parte do "roteiro" molecular, embora sem apagar completamente a versão original.
O resultado mais surpreendente apareceu ao analisar o envelhecimento biológico, ou seja, a idade biológica estimada das células, que nem sempre coincide com a idade cronológica. Participantes de ascendência do leste asiático que viviam fora da Ásia apresentaram envelhecimento celular mais acelerado do que aqueles que permaneciam na região. Entre os europeus ocorreu o contrário: aqueles que viviam fora da Europa pareciam biologicamente mais jovens do que seus equivalentes no continente.
Em outras palavras, migrar pode acelerar ou desacelerar o envelhecimento celular. Tudo depende de quem você é e do lugar para onde você se muda.
Conexão com o intestino
O estudo também descobriu uma conexão, até então não descrita, entre uma bactéria intestinal específica e um gene associado à telomerase – a enzima responsável por manter os telômeros, estruturas protetoras dos cromossomos – e ligada ao envelhecimento celular. Ambos estavam conectados por meio de uma molécula chamada esfingomielina, que pertence a uma família de gorduras conhecidas como esfingolipídios.
Segundo os pesquisadores, essa relação pode indicar mecanismos moleculares pelos quais certas bactérias intestinais poderiam influenciar o envelhecimento celular. Além disso, estudos anteriores já haviam associado níveis elevados de alguns esfingolipídios a um maior risco de doenças cardiovasculares, resistência à insulina, aterosclerose e doenças neurodegenerativas.
Rumo a uma medicina personalizada
O trabalho pode ter implicações importantes para a medicina personalizada. Os autores defendem que o atendimento de saúde deve se adaptar melhor às diferenças entre a ancestralidade genética e o ambiente. Isso coloca em dúvida a ideia de um "paciente padrão", já que a biologia humana pode variar muito entre diferentes populações.
Assim, o estudo não sugere que um grupo étnico envelheça "melhor" que outro, mas sim que o aconselhamento médico e nutricional provavelmente deve considerar tanto a ancestralidade genética quanto a geografia para ser realmente preciso.
Todos os dados do estudo foram disponibilizados de forma aberta, para que outros pesquisadores possam continuar investigando o tema. O objetivo, segundo os cientistas, é avançar em direção a uma medicina personalizada, adaptada à enorme diversidade humana, em vez de depender de modelos universais que podem ignorar diferenças biológicas importantes entre populações.