Trump pode ameaçar e invadir Cuba? Entenda o que diz o direito internacional

  • 26/05/2026
(Foto: Reprodução)
EUA deslocam porta-aviões e navios de guerra para o Mar do Caribe, próximo de Cuba Nas últimas semanas, os Estados Unidos vêm aumentando a pressão sobre Cuba em uma tentativa de chegar a um acordo que pode resultar na queda do governo cubano. O presidente Donald Trump tem sugerido, inclusive, que pode tomar a ilha à força. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp ▶️ Contexto: No dia 20 de maio, o governo dos EUA acusou formalmente Raúl Castro, irmão de Fidel Castro e ex-presidente de Cuba, de uma série de crimes. A medida representou mais um capítulo na escalada de tensão entre os dois países. Castro é acusado pelos EUA de ter planejado e executado a operação militar que derrubou, em 1996, duas aeronaves da organização de exilados cubanos Irmãos ao Resgate. Trinta anos depois, o governo norte-americano o indiciou por quatro homicídios, dois crimes de destruição de aeronave e um crime de conspiração para matar cidadãos americanos. Atualmente, Castro tem 94 anos e ainda exerce influência no governo cubano. No mesmo dia do indiciamento, os EUA anunciaram que o porta-aviões USS Nimitz havia chegado à região do Caribe. O indiciamento de Castro e a movimentação militar no Caribe relembraram medidas semelhantes adotadas pelo governo norte-americano semanas antes da ofensiva contra a Venezuela. A operação, feita em janeiro, resultou na captura do ditador Nicolás Maduro. Assim como acontece agora com Cuba, Trump também fez uma série de ameaças contra a Venezuela e determinou o envio de um forte efetivo militar ao Caribe para pressionar Maduro. No entanto, uma eventual ação militar contra Cuba pode gerar questionamentos no direito internacional. As justificativas apresentadas atualmente pelos EUA podem não ser suficientes para respaldar uma intervenção militar, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). 🔎 Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, afirma que a Carta da ONU permite o uso da força apenas em casos de legítima defesa diante de um ataque armado ou com autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Segundo ele, um país não pode agir militarmente de forma unilateral sem uma justificativa prevista no direito internacional. Isso também vale para ameaças de intervenção, assim como Trump está fazendo. Para Fancelli, a controvérsia está justamente na tentativa de enquadrar determinadas situações como justificativa legítima para uma ação militar. “Por mais que seja um Estado autoritário, por mais que desrespeite direitos humanos, isso, por si só, não se configuraria, do ponto de vista legal, como algo suficiente para justificar uma ação militar”, afirma. Segundo Fancelli, o cenário seria diferente se os Estados Unidos alegassem legítima defesa após um ataque de Cuba contra a base de Guantánamo, navios ou o próprio território americano. “Agora, se ele diz: ‘Vamos atacar Cuba porque Cuba é um regime autoritário, porque tem relações com a China ou com a Rússia’, aí isso não se configuraria como legítima defesa”, diz. “Os Estados Unidos podem sancionar Cuba, denunciar violações e pressionar diplomaticamente. Mas isso não significa necessariamente que possam ficar fazendo ameaças de agir militarmente”, afirma. O que vem por aí? Trump e Raul Castro Reuters A imprensa norte-americana afirma que Trump busca promover uma mudança de regime em Cuba até o fim do ano. O presidente tem adotado medidas para pressionar a ilha e enfraquecer o governo local — como o bloqueio ao envio de petróleo, que agravou a crise energética no país. Por outro lado, de acordo com uma reportagem publicada pelo site Politico no dia 18 de maio, o governo dos EUA avalia que a pressão econômica aplicada contra Cuba não deu os resultados esperados. Diante disso, fontes ligadas ao governo afirmaram que conselheiros de Trump e o próprio presidente passaram a considerar seriamente lançar uma operação militar, segundo o site. “A ideia inicial sobre Cuba era que a liderança estava fraca e que a combinação de uma aplicação mais rígida das sanções (...) e vitórias militares claras dos EUA na Venezuela e no Irã assustaria os cubanos e os levaria a fechar um acordo”, disse a fonte ao Politico. “Agora, a situação no Irã saiu dos trilhos, e os cubanos estão se mostrando muito mais resistentes do que se imaginava inicialmente. Por isso, uma ação militar agora está sobre a mesa de um jeito que antes não estava.” 🔎 O g1 ouviu especialistas em relações internacionais sobre os possíveis cenários para a crise envolvendo Estados Unidos e Cuba: Os EUA podem lançar uma operação militar contra Cuba para capturar Raúl Castro e levá-lo ao território americano, assim como aconteceu com Maduro. A operação pode enfrentar uma resistência militar maior do que a encontrada pelos EUA na Venezuela, o que elevaria o risco de um conflito sangrento e com forte impacto político. Por outro lado, uma eventual intervenção pode receber apoio popular dentro de Cuba por causa da grave crise econômica enfrentada pelo país. Outro cenário considerado é que os EUA estejam aguardando o surgimento de uma liderança cubana disposta a negociar uma transição de poder alinhada a Washington. 👉 A seguir, veja em detalhes o que pode acontecer em Cuba nas próximas semanas. No radar dos EUA Incidente em meio a tensão entre EUA e Cuba, após a imposição de embargo petrolífero à ilha por Washington CTK Photo/IMAGO via DW Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, acredita que, no cenário atual, é provável que os Estados Unidos tentem resolver primeiro a questão do Irã antes de investir na crise cubana. O próprio presidente Donald Trump sugeriu algo parecido neste mês ao dizer que os EUA poderiam agir contra a ilha “na volta do Irã”. “Cuba tem problemas. Vamos terminar uma coisa primeiro. Gosto de terminar um trabalho”, afirmou no dia 1º de maio. Para Santoro, existe uma possibilidade real de que os Estados Unidos tentem fazer uma intervenção muito rápida. Por outro lado, ele aponta que há risco de reação militar por parte de Cuba. “Se realmente os americanos obtivessem um sucesso militar imediato, o que restaria ao Estado cubano seria uma guerra de guerrilha: ir para o interior do país, abandonar as grandes cidades e lançar uma guerra contra uma eventual ocupação americana”, afirma. "Cuba tem militares experientes, veteranos das guerras africanas, em Angola e na Etiópia. Então existe possibilidade de um choque muito violento com os Estados Unidos". Segundo ele, no entanto, a situação econômica em Cuba está tão grave que, se realmente ocorrer uma intervenção, ela pode até receber apoio popular expressivo dentro da ilha. 🔎 O professor aponta que os Estados Unidos não teriam grandes dificuldades para realizar uma operação contra Cuba. O estado da Flórida, por exemplo, fica a menos de 300 quilômetros da ilha. Além disso, os americanos mantêm a base militar de Guantánamo em território cubano. A presença de um porta-aviões na região também facilitaria um ataque aéreo. Uma das possibilidades seria lançar uma operação para capturar Raúl Castro e até mesmo o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. Ambos poderiam ser levados para os Estados Unidos e permanecerem presos, assim como aconteceu com Maduro. O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, disse na quarta-feira (20) que Castro vai comparecer aos EUA para responder às acusações “por vontade própria ou de outra forma”. Mudança de governo Raúl Castro em 1º de maio de 2025 em Havana, Cuba Norlys Perez / Reuters Em entrevista à GloboNews, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirmou que há sinais de que uma operação militar contra Cuba está se aproximando. O que falta, segundo ele, é uma visão clara sobre o que virá depois. Na avaliação do professor, um dos fatores que dificultam uma operação é a falta de uma liderança cubana que os Estados Unidos considerem capaz de negociar uma transição política, como aconteceu na Venezuela. Após a captura de Maduro, Trump conseguiu construir uma relação com a presidente interina Delcy Rodríguez. A medida resultou na manutenção de um governo alinhado aos interesses dos Estados Unidos sem que houvesse uma mudança de regime na prática. “O ideal do ponto de vista de Washington seria encontrar uma pessoa capaz de substituir a atual liderança política, o presidente Díaz-Canel, e transformar Cuba em um país alinhado aos Estados Unidos, facilitando também acordos econômicos, comerciais e investimentos americanos”, afirma. 🔎 Stuenkel afirma que existe a expectativa de que uma operação militar contra Cuba possa ser apresentada ao eleitorado americano como uma grande conquista política. A questão cubana historicamente mobiliza setores da política dos EUA, principalmente entre exilados cubanos e grupos conservadores — alinhados a Trump. Segundo o professor, na visão da Casa Branca, uma ação contra Cuba poderia ser bem recebida por parte do eleitorado, assim como aconteceu na ofensiva contra a Venezuela. A operação também poderia ter uma avaliação diferente da ofensiva lançada pelos EUA contra o Irã, que é vista como um fracasso pelo eleitorado. “Mas tudo dependerá do que acontecer depois de uma eventual atuação militar. Uma coisa é fragilizar um país. Outra é estabilizá-lo da forma esperada.” VÍDEOS: mais assistidos do g1

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/26/ameacas-de-trump-a-cuba-entenda-o-que-diz-o-direito-internacional.ghtml


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